Como um campeão mundial de HYROX responde à combinação de corrida e estações? Um estudo de caso publicado em 2026 investigou as características fisiológicas e biomecânicas de um atleta da Elite 15 antes, durante e depois de uma simulação parcial da modalidade.
O principal destaque foi a excelente economia de corrida, amplamente preservada após o esforço acumulado. Entretanto, essa estabilidade não significou ausência de fadiga: o VO₂máx diminuiu, a percepção de esforço aumentou e algumas características da passada se modificaram.
Os resultados mostram que diferentes indicadores podem responder de maneiras distintas ao mesmo esforço.
Objetivo do estudo
Schwalm e colaboradores buscaram caracterizar o perfil fisiológico e biomecânico de um campeão mundial de HYROX, contribuir para o desenvolvimento de avaliações específicas e orientar futuras pesquisas sobre as demandas da modalidade.
Para isso, avaliaram o consumo de oxigênio, os limiares de lactato, a economia de corrida, a percepção de esforço e parâmetros biomecânicos.
A pesquisa foi um estudo de caso com um único participante. Portanto, descreve as respostas desse atleta e não estabelece um perfil universal dos campeões de HYROX.
O perfil do atleta
O participante tinha 25 anos, competia regularmente na Elite 15 e havia conquistado um título mundial nessa divisão em 2025.
| Característica | Resultado |
|---|---|
| Estatura | 180,8 cm |
| Massa corporal inicial | 80,7 kg |
| Gordura corporal estimada por dobras cutâneas | 5,8% |
| Melhor tempo no HYROX Pro individual | 56min19s |
| Melhor tempo no HYROX Pro em duplas | 50min24s |
| Melhor tempo nos 10 km | 33 minutos |
| Melhor tempo na maratona | 2h36min |
| Salto vertical com contramovimento, sem balanço dos braços | 41,5 ± 0,9 cm |
| Salto horizontal parado | 229,7 ± 3,9 cm |
O atleta treinava para HYROX desde 2021 e se dedicava exclusivamente à modalidade desde 2024. Seu volume médio era de 16 horas semanais: 10 horas de corrida, quatro horas de força específica e duas horas de treinamento específico de competição.
Essas informações descrevem sua rotina no momento da avaliação. O estudo não testou essa distribuição de treinamento nem demonstrou que ela causou os resultados observados.
Como foi realizada a avaliação?
O protocolo ocorreu em uma única ocasião, em laboratório, e durou aproximadamente duas horas.
Após avaliações antropométricas, aquecimento e testes de salto, o atleta realizou um teste de corrida, uma simulação parcial de HYROX e um segundo teste de corrida.
Teste inicial de corrida
O teste começou a 12 km/h, em esteira com inclinação de 0,5%. A velocidade aumentava 1 km/h a cada estágio de três minutos.
Ao final dos estágios, foram avaliados lactato sanguíneo e percepção de esforço. Frequência cardíaca, trocas gasosas e parâmetros biomecânicos também foram registrados.
Depois da parte em estágios, o atleta realizou uma rampa com aumentos de 0,5 km/h a cada 30 segundos, até a exaustão voluntária.
O primeiro limiar de lactato, LT1, foi determinado pelo aumento de 0,4 mmol/L acima da menor concentração individual. O segundo, LT2, foi definido pela concentração correspondente ao LT1 acrescida de 1,5 mmol/L.
Simulação parcial de HYROX
Após 15 minutos de recuperação passiva, o participante realizou cinco corridas de 1.000 metros intercaladas com quatro estações:
| Sequência | Atividade |
|---|---|
| 1 | 1.000 m de corrida |
| 2 | 1.000 m de remo |
| 3 | 1.000 m de corrida |
| 4 | 200 m de farmer carry com dois implementos de 32 kg |
| 5 | 1.000 m de corrida |
| 6 | 100 m de sandbag lunges com 30 kg |
| 7 | 1.000 m de corrida |
| 8 | 80 m de burpee broad jumps |
| 9 | 1.000 m de corrida |
As corridas ocorreram na esteira, com velocidade escolhida pelo atleta e sem acesso visual ao indicador de velocidade. As estações com deslocamento foram realizadas em um corredor de 10 metros.
A escolha e a ordem das estações foram condicionadas à estrutura do laboratório. Os burpee broad jumps substituíram os wall balls na posição final por falta de altura suficiente no ambiente.
Lactato e percepção de esforço foram avaliados após cada corrida e estação. Não houve medição de trocas gasosas durante a simulação.
Teste final de corrida
Depois de outros 15 minutos de recuperação passiva, o atleta repetiu o teste em estágios seguido de rampa.
Essa comparação permitiu observar as respostas à carga acumulada. Porém, o primeiro teste já havia levado o participante à exaustão, o que também pode ter influenciado os resultados posteriores.
VO₂máx: elevado, mas inferior ao de especialistas de endurance
O VO₂máx inicial foi de 61,3 mL/kg/min.
Os autores consideraram esse valor excelente, mas relativamente inferior aos observados em atletas de elite da corrida, do triatlo e do esqui cross-country.
Na discussão, relacionam essa diferença às demandas do HYROX, que exige capacidade aeróbia juntamente com força e resistência muscular para completar as estações.
Após o protocolo, o VO₂máx foi de 57,0 mL/kg/min. O artigo descreve essa redução como 7,5%.
Apesar da queda no consumo máximo de oxigênio, os dois testes terminaram na mesma velocidade: 22,5 km/h.
A massa corporal passou de 80,7 para 77,1 kg ao longo da avaliação. Os pesquisadores utilizaram a massa correspondente a cada momento para calcular o consumo de oxigênio relativo.
Economia de corrida: o principal destaque
Economia de corrida representa o custo de oxigênio ou energia necessário para correr em determinada velocidade.
Os autores destacaram um custo de oxigênio próximo de 185 mL/kg/km, comparável aos valores apresentados para corredores de elite. Também ressaltaram que a maior massa corporal do participante deve ser considerada nessa comparação.
A 16 km/h, o custo energético passou de 3,92 para 3,89 J/kg/m após o protocolo, uma diferença de aproximadamente 0,7%.
Nas velocidades iguais ou superiores a 16 km/h, houve tendência a menor consumo de oxigênio e menor lactato no teste final.
O achado central foi a preservação da economia nas velocidades relevantes para a prova, apesar da redução do VO₂máx e do aumento da percepção de esforço.
Como o consumo de oxigênio não foi medido durante a simulação, os resultados não permitem determinar diretamente o custo metabólico da corrida imediatamente após cada estação.
Limiares de lactato: aumento das velocidades no teste final
| Indicador | Antes | Depois |
|---|---|---|
| Velocidade no LT1 | 15,4 km/h | 16,4 km/h |
| Velocidade no LT2 | 17,5 km/h | 18,0 km/h |
Os autores observaram velocidades maiores nos dois limiares após a simulação. Entretanto, alertaram que essa mudança exige cautela.
A menor disponibilidade de carboidratos e uma possível redução do glicogênio podem contribuir para menores concentrações de lactato em uma mesma carga.
Embora o atleta tenha recebido carboidratos durante a avaliação, os autores consideraram a quantidade inferior às recomendações citadas para exercício prolongado de alta intensidade. O glicogênio não foi medido diretamente.
Assim, o aumento das velocidades calculadas para os limiares não demonstra, por si só, uma melhora fisiológica após o esforço.
Ritmo de corrida durante a simulação
O atleta manteve tempos semelhantes nas três primeiras corridas. A maior redução de velocidade ocorreu após os sandbag lunges.
| Corrida | Tempo |
|---|---|
| Primeira corrida, antes das estações | 3min22s |
| Após o remo | 3min23s |
| Após o farmer carry | 3min22s |
| Após os sandbag lunges | 3min30s |
| Após os burpee broad jumps | 3min17s |
As três primeiras corridas ficaram próximas de 17,8 km/h. Depois dos avanços, a velocidade caiu para aproximadamente 17,1 km/h. Na última corrida, chegou a aproximadamente 18,3 km/h.
Os autores interpretaram essa aceleração final como uma manifestação do pacing: o atleta ajustou o esforço conforme a posição do trecho no protocolo.
Lactato e percepção de esforço nas estações
Durante boa parte das corridas, o lactato permaneceu próximo de 4–5 mmol/L. A percepção de esforço ficou em torno de 15, na escala de Borg de 6 a 20, até a estação de avanços.
Os sandbag lunges foram acompanhados por aumento do lactato e da percepção de esforço. A corrida seguinte foi a mais lenta da simulação.
Entre as estações avaliadas, os burpee broad jumps produziram os maiores valores de lactato e percepção de esforço:
- Lactato: 7,7 mmol/L.
- Percepção de esforço: 18.
Na corrida final, após os burpees, foram registrados os maiores valores gerais: 8,5 mmol/L de lactato e percepção de esforço de 19.
Como essa era a última corrida, o resultado não permite concluir que os burpees tiveram pouco efeito sobre o atleta. Também não permite classificá-los como a estação mais exigente de uma prova completa, pois nem todas as estações foram incluídas.
Alterações biomecânicas
Na comparação entre os testes inicial e final, os pesquisadores observaram:
- redução média de 2,1 passos por minuto na cadência;
- redução média de 5,1 milissegundos no tempo de contato com o solo;
- aumento médio de 10,1 milissegundos no tempo de voo.
As mudanças foram relativamente pequenas, especialmente nas velocidades mais elevadas.
Durante a simulação, a cadência foi menor nas corridas após farmer carry e sandbag lunges do que após remo e burpees.
A menor cadência registrada, de 162,8 passos por minuto, ocorreu ao final da corrida após os avanços.
Os autores discutiram a possibilidade de fadiga muscular local, mas também destacaram que essa corrida foi a mais lenta. Como a velocidade influencia a cadência, não é possível separar completamente os dois efeitos.
O que o estudo mostra sobre durabilidade?
O artigo diferencia durabilidade fisiológica e durabilidade de desempenho. A primeira se refere à preservação das características fisiológicas durante o esforço; a segunda, à capacidade de manter o desempenho apesar das alterações nessas características.
No participante, a resposta à fadiga não foi uniforme:
- o VO₂máx diminuiu;
- a economia submáxima foi amplamente preservada;
- a percepção de esforço aumentou;
- as alterações biomecânicas foram relativamente pequenas.
Os autores interpretaram a preservação da economia como um sinal de excelente durabilidade fisiológica nesse protocolo.
Entretanto, o estudo não demonstrou que essa característica causou o título mundial nem quantificou sua contribuição para o desempenho competitivo.
Comparação com uma competição
Os pesquisadores compararam os tempos da simulação com os de uma prova realizada dez dias depois.
Vários tempos foram semelhantes, mas houve diferenças. A corrida após os burpees durou 3min17s na simulação e 3min42s na competição.
Essa diferença foi discutida considerando que, no laboratório, a corrida após os burpees encerrava o protocolo.
As estações com deslocamento também ocorreram em um corredor de 10 metros, aumentando o número de mudanças de direção em relação a determinadas condições de competição. Além disso, o tempo do remo na prova incluía um deslocamento que não fazia parte da medição no laboratório.
Limitações do estudo
Os resultados precisam ser interpretados considerando:
- avaliação de apenas um atleta, em uma única ocasião;
- ausência de grupo de comparação;
- simulação parcial e ordem adaptada das estações;
- corrida realizada em esteira;
- teste inicial até a exaustão, com possível influência nas etapas seguintes;
- intervalos de recuperação entre as etapas;
- ausência de medição de trocas gasosas durante a simulação;
- ausência de avaliação direta da força máxima e do glicogênio.
Os autores também destacaram a necessidade de investigar se essas respostas representam características particulares do participante ou padrões encontrados em outros atletas de HYROX.
Conclusão
O campeão mundial avaliado apresentou VO₂máx elevado e economia de corrida excepcional. Após o protocolo, sua capacidade aeróbia máxima diminuiu, mas o custo energético da corrida foi amplamente preservado nas velocidades relevantes para a prova.
As estações antecederam respostas distintas na corrida seguinte, com maior lentidão após os avanços e maiores valores de lactato entre as estações durante os burpee broad jumps.
O estudo mostra que a fadiga pode alterar alguns indicadores enquanto outros permanecem estáveis. Seus resultados contribuem para compreender o HYROX, mas ainda precisam ser investigados em amostras maiores e em condições mais próximas de uma competição completa.
Referência: Schwalm, L.; Schaffarczyk, M.; Mai, J.; Hollander, K.; Gronwald, T.; Fohrmann, D. (2026). Physiological and biomechanical characteristics of a Hyrox world champion—a case study. German Journal of Exercise and Sport Research. DOI: 10.1007/s12662-026-01162-0.


