Limiar de lactato e desempenho no HYROX: por que correr rápido não explica tudo

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O que determina um bom resultado no HYROX?

O HYROX alterna oito corridas de 1 km com oito estações funcionais. Para terminar bem, o atleta precisa correr repetidamente e ainda executar tarefas como sled push, sled pull, burpee broad jumps e wall balls sob fadiga acumulada.

Um estudo piloto de Davids, Plews e Laursen, publicado em setembro de 2026 no Sport Performance and Science Reports, investigou uma pergunta relevante para quem programa esse tipo de treinamento: entre atletas já treinados, quais medidas aeróbias estão mais relacionadas ao desempenho na prova?

Nos oito homens avaliados, a velocidade no segundo limiar de lactato (LT2) apresentou a associação mais forte com o tempo total. Medidas relacionadas à capacidade de sustentar uma fração elevada do VO₂máx também se associaram ao desempenho, inclusive ao tempo gasto nas estações. Os resultados são promissores, mas o tamanho da amostra exige cautela.

Como o estudo foi realizado?

Participaram oito competidores masculinos das divisões Open e Pro, com idade média de 29,6 anos e tempo médio de prova de 69,7 minutos. Cada atleta realizou um teste incremental em esteira, com estágios de quatro minutos, coleta de lactato sanguíneo e medição do consumo de oxigênio. Os pesquisadores compararam os resultados do laboratório com uma prova oficial disputada em até seis semanas do teste.

As principais variáveis analisadas foram:

  • LT1: primeiro limiar de lactato;
  • LT2: segundo limiar de lactato, estimado principalmente pelo método individualizado modified Dmax;
  • OBLA: velocidade correspondente à concentração fixa de 4 mmol/L de lactato;
  • Utilização fracionária: VO₂ no LT2 expresso como porcentagem do VO₂máx;
  • VO₂máx e economia de corrida.

O estudo foi observacional. Portanto, ele identifica associações entre medidas e desempenho, mas não demonstra que aumentar uma medida específica causará uma melhora de determinado tamanho na prova.

Principal achado: a velocidade no LT2 esteve ligada ao tempo final

A velocidade média no LT2 foi de 15,6 km/h, e sua correlação com o tempo total de HYROX foi r = −0,81. O sinal negativo significa que, nesse grupo, atletas com LT2 mais rápido tenderam a completar a prova em menos tempo.

Em um modelo exploratório com apenas essa variável, a velocidade no LT2 explicou aproximadamente 65% da variação dos tempos. Os autores apresentaram uma estimativa de cerca de 6,3 minutos a menos no tempo final para cada 1 km/h a mais no LT2. Isso não deve ser usado como promessa de evolução individual: trata-se de uma relação estatística obtida de apenas oito atletas, em um único momento.

A velocidade no LT2 também se associou ao tempo de corrida (r = −0,69) e ao tempo nas estações (r = −0,77). Esse segundo resultado é especialmente interessante: uma característica medida durante a corrida apareceu relacionada ao desempenho nas tarefas funcionais.

Por que uma medida de corrida se relacionaria às estações?

Os autores propõem uma explicação fisiológica. Se dois atletas correm no mesmo ritmo, aquele com um LT2 mais alto pode realizar esse trecho com menor estresse metabólico relativo. Assim, chegaria à estação seguinte em melhores condições para executar o trabalho e se recuperar antes do próximo quilômetro.

Essa interpretação combina com a estrutura da prova, mas o estudo não mediu diretamente a recuperação entre estações nem testou esse mecanismo. Força, técnica, potência e resistência muscular continuam sendo componentes importantes do desempenho nas estações. A leitura mais útil é que a preparação aeróbia pode influenciar também como o atleta executa essas tarefas depois de correr.

Outro dado reforça essa hipótese: o VO₂ medido na velocidade do LT2 teve forte associação com o tempo nas estações (r = −0,84). A utilização fracionária também se associou ao tempo nas estações (r = −0,70). Essas medidas, porém, estão relacionadas entre si e não representam três fatores independentes.

O VO₂máx deixou de ser importante?

Não. Neste grupo, o VO₂máx variou pouco: 50,4 a 57,0 mL/kg/min. Com atletas relativamente semelhantes nesse indicador, o estudo não conseguiu identificar uma associação clara entre VO₂máx e tempo final.

Isso ajuda a entender a diferença em relação a uma pesquisa anterior (Brandt et al., 2025)  com competidores recreativos de capacidades mais variadas, na qual o VO₂máx se associou fortemente ao desempenho. Quando comparamos pessoas com níveis aeróbios muito diferentes, o VO₂máx pode ajudar a distingui-las. Entre atletas já treinados e próximos nesse aspecto, a velocidade alcançada no limiar pode oferecer informação adicional.

Não encontrar associação clara em uma amostra pequena e homogênea não significa que o VO₂máx seja irrelevante para o HYROX.

Limitações que precisam acompanhar a interpretação

Este é um estudo piloto com apenas oito homens treinados. Os intervalos de confiança das correlações são amplos, e os participantes competiram em divisões e eventos diferentes. O LT2 foi estimado em laboratório, sem uma verificação direta do máximo estado estável de lactato. A pesquisa também não avaliou força, potência e resistência muscular em conjunto com as variáveis aeróbias.

Assim, os resultados levantam hipóteses úteis para avaliação e programação, mas ainda precisam ser confirmados em amostras maiores, com mulheres, diferentes níveis de experiência e medidas detalhadas das capacidades exigidas nas estações.

Conclusão

Neste pequeno grupo de competidores treinados, a velocidade no segundo limiar de lactato esteve fortemente associada ao tempo total do HYROX. Ela também se relacionou ao tempo nas estações, sugerindo que a capacidade aeróbia sustentável pode ter relevância além dos quilômetros de corrida.

Para a prática, a mensagem é clara: vale avaliar e desenvolver a corrida de forma integrada às estações, monitorando ritmo, execução e queda de desempenho sob fadiga. Ainda precisamos de estudos maiores e intervenções de treinamento para saber quanto da melhora no LT2 se traduz, de fato, em uma prova mais rápida.

Referência:

Davids CJ, Plews DJ, Laursen PB. Lactate threshold speed and fractional utilisation as key correlates of HYROX© performance in trained males. Sport Performance and Science Reports. 2026;319:v1.

Brandt T, Ebel C, Lebahn C and Schmidt A (2025) Acute physiological responses and performance determinants in Hyrox© – a new running-focused high intensity functional fitness trend. Front. Physiol. 16:1519240. doi: 10.3389/fphys.2025.1519240
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