Durante décadas, o treinamento concorrente — a combinação de força e exercícios de endurance — foi visto com desconfiança. A hipótese clássica era a do “efeito de interferência”, que sugeria que o trabalho aeróbico poderia prejudicar os ganhos de força e hipertrofia.
Mas será que essa ideia ainda se sustenta diante das evidências mais recentes?
Um estudo publicado em 2023 no The FASEB Journal por Lee et al. trouxe respostas importantes sobre como o corpo realmente reage quando combinamos treinamento de força e endurance dentro da mesma rotina de treinos.
🎯 O objetivo do estudo
Os pesquisadores quiseram entender se o treino concorrente realmente compromete as respostas anabólicas do músculo esquelético, especialmente no que se refere à síntese de proteínas miofibrilares (MyoPS) — o processo que sustenta o crescimento e a recuperação muscular.
Eles também analisaram se a ordem das sessões (força antes ou depois do HIIT) e o nível de treinamento (antes e depois de 10 semanas de prática) influenciariam essa resposta.
🧪 Metodologia do estudo
Foram avaliados 25 homens moderadamente ativos, divididos em três grupos de treino:
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TF: apenas treino de força (leg press, agachamentos, supino etc.);
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TF + HIIE: treino de força seguido, após 3h, por um treino intervalado de alta intensidade (HIIT);
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HIIE + TF: HIIT seguido, após 3h, pelo treino de força.
As sessões aconteceram 3 vezes por semana durante 10 semanas.
Os pesquisadores utilizaram biópsias musculares e uma técnica com água marcada (D₂O) para medir, de forma contínua, a taxa de síntese de proteínas miofibrilares antes e depois do período de treinamento.
Além disso, analisaram a expressão de genes e proteínas ligadas à sinalização anabólica (mTORC1, Akt, rpS6) e catabólica (AMPK, MuRF1, MAFbx), além da variação do glicogênio muscular.
🔬 Resultados principais
1. Síntese proteica miofibrilar (MyoPS)
Na primeira semana, a taxa de síntese de proteínas aumentou em todos os grupos (≈ +30–40%), sem diferenças significativas entre treino apenas de força ou concorrente.
Após 10 semanas, essa resposta foi mais atenuada — um sinal de adaptação ao treinamento, e não de interferência negativa.
👉 Conclusão: o treino concorrente não compromete a resposta anabólica do músculo, independentemente da ordem das sessões.
2. Sinalização molecular (mTORC1, AMPK, Akt)
Os marcadores de síntese proteica e metabolismo energético apresentaram respostas semelhantes entre os grupos.
Mesmo com a ativação da AMPK (ligada à demanda energética do HIIT), não houve redução da atividade do mTORC1 (ligada à hipertrofia).
👉 Conclusão: não houve evidência de “bloqueio” entre as vias anabólicas e catabólicas — um argumento contra o “efeito de interferência” molecular.
3. Expressão gênica (PGC-1α, MuRF1 e MAFbx)
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O gene PGC-1α, marcador de biogênese mitocondrial, aumentou em todos os grupos — inclusive no treino de força isolado.
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Os genes MuRF1 e MAFbx, associados à degradação proteica, apresentaram pequenas variações conforme a ordem dos treinos, mas sem impacto negativo no equilíbrio anabólico.
👉 Conclusão: o treino concorrente estimula tanto vias relacionadas à força quanto à resistência, favorecendo um perfil muscular híbrido — forte e resistente.
4. Glicogênio muscular
Os grupos concorrentes apresentaram maior depleção de glicogênio durante os treinos, o que era esperado devido ao maior volume total.
Porém, após as 10 semanas, o glicogênio de repouso aumentou, indicando melhor capacidade de armazenamento e uso de energia.
👉 Conclusão: treinar força e endurance no mesmo dia melhora a eficiência metabólica, desde que haja recuperação nutricional adequada.
💪 Interpretação prática: o que isso significa para seu treino?
O estudo confirma algo que a prática já vinha mostrando:
é possível combinar força e condicionamento sem comprometer a hipertrofia — desde que o programa seja bem estruturado.
Alguns pontos essenciais:
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Intervalo entre sessões
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O estudo utilizou 3 horas de intervalo entre força e HIIT, tempo suficiente para reduzir possíveis interferências metabólicas.
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Em boxes e academias, essa estratégia pode ser aplicada separando o treino de força pela manhã e o condicionamento à tarde.
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Controle do volume e intensidade
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O erro mais comum é exagerar no volume de endurance, o que pode gerar fadiga acumulada e reduzir o rendimento nos treinos de força.
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O equilíbrio é a chave: a força deve continuar sendo o estímulo principal se o objetivo for aumentar a força ou preservar e aumentar a massa muscular.
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Nutrição adequada
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Como o glicogênio foi mais reduzido nos grupos concorrentes, é essencial repor carboidratos entre as sessões.
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Um consumo de 1,2 a 1,5 g/kg de carboidratos pós-treino ajuda a restaurar a energia e otimizar a recuperação.
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Adaptação com o tempo
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Após algumas semanas, as respostas moleculares se tornam mais sutis — um sinal de que o corpo está mais eficiente.
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Isso reforça a importância da periodização e da variação de estímulos para continuar progredindo.
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⚙️ Conclusão: o mito da interferência está caindo
O trabalho de Lee et al. (2023) reforça que o efeito de interferência não é uma regra, mas sim uma questão de contexto.
Com estrutura adequada, o treinamento concorrente pode gerar ganhos similares de força, massa magra e condicionamento — sem prejuízo anabólico.
Para atletas de CrossFit®, Hyrox ou Functional Fitness, essa evidência é especialmente relevante:
essas modalidades exigem múltiplas capacidades físicas, e o corpo é capaz de se adaptar simultaneamente a estímulos de força e endurance quando o treino é planejado com inteligência.
🔍 Referência
Lee, M.J. et al. (2023). Resistance-only and concurrent exercise induce similar myofibrillar protein synthesis rates and associated molecular responses in moderately active men before and after training. The FASEB Journal, 38, e23392.

