Prescrição de Intensidade no Treinamento de Endurance: Limiar Fisiológico ou Método Tradicional?

Prescrição de Intensidade no Treinamento de Endurance_ Limiar Fisiológico ou Método Tradicional_

Introdução: Por que ainda estamos prescrevendo errado?

A melhora do VO₂max é o objetivo de milhões de corredores, ciclistas e praticantes de endurance ao redor do mundo. Afinal, esse marcador de aptidão cardiorrespiratória não só está ligado diretamente ao desempenho esportivo, mas também é considerado um dos preditores mais poderosos de saúde e longevidade. No entanto, mesmo com décadas de pesquisa, muitos programas de treinamento ainda utilizam métodos imprecisos para prescrever a intensidade do exercício.

Um estudo recente publicado no periódico Sports Medicine (Meyler et al., 2025) trouxe dados contundentes sobre a eficácia de diferentes formas de prescrição. A pergunta era simples: prescrever o treino com base em limiares fisiológicos é mais eficaz do que os métodos tradicionais baseados em porcentagens fixas? A resposta, como veremos, pode transformar sua maneira de montar ou seguir um programa de treino.


O que é VO₂max e por que ele importa tanto?

O VO₂max representa a capacidade máxima do organismo de captar, transportar e utilizar oxigênio durante o exercício. É o reflexo do trabalho conjunto do coração, pulmões, sangue e músculos em atividade. Quanto maior o VO₂max, maior a capacidade de sustentar intensidades elevadas por mais tempo — algo crucial em provas como 5K, 10K, meia maratona, maratona, triatlo ou ciclismo de estrada.

Além do desempenho, o VO₂max também é um forte preditor de saúde. Aumentar esse valor em apenas 3,5 mL/kg/min (1 MET) pode reduzir o risco de mortalidade em até 30% e os custos com saúde em 5%. Com isso, ele é considerado uma “medicação preventiva natural”.


Por dentro da pesquisa: o que o estudo analisou?

Meyler e colaboradores realizaram uma revisão sistemática com meta-análise de dados individuais (IPD), reunindo informações de 42 estudos e 1.544 participantes saudáveis. O foco foi comparar dois métodos de prescrição de intensidade:

1. Âncoras Tradicionais (TRAD)

Baseadas em percentuais fixos de variáveis como:

  • Frequência cardíaca máxima (FCmax)

  • VO₂max

  • Reserva de frequência cardíaca (HRR)

  • Reserva de consumo de oxigênio (VO₂R)

2. Limiar Fisiológico (THR)

Baseadas em limiares determinados de forma individual:

  • Limiar ventilatório 1 (VT1)

  • Limiar ventilatório 2 (VT2)

  • Ponto de compensação respiratória (RCP)

  • Potência crítica (CP)

  • Limiar de lactato (LT)

A pergunta era: qual método gera maiores ganhos em VO₂max, menor variabilidade de resposta e maior proporção de indivíduos que ultrapassam um ganho clinicamente relevante de 3,5 mL/kg/min (1 MET)?


Principais resultados

🎯 Ganho médio de VO₂max

  • Estudos com grupo controle

    • THR: +4,1 mL/kg/min

    • TRAD: +1,8 mL/kg/min

  • Estudos sem grupo controle

    • THR: +4,4 mL/kg/min

    • TRAD: +3,4 mL/kg/min

Conclusão: Prescrever com base em limiares fisiológicos promove ganhos quase 2x maiores de VO₂max.


📈 Proporção de indivíduos que melhoram acima do mínimo clínico (1 MET)

  • Estudos com grupo controle:

    • THR: 64%

    • TRAD: 16%

  • Estudos sem grupo controle:

    • THR: 60%

    • TRAD: 47%

Conclusão: O uso de limiares aumenta substancialmente a chance de obter um ganho significativo.

Por que os limiares fisiológicos são superiores?

  1. Individualização real: os limiares refletem de forma mais precisa o ponto de transição metabólica de cada pessoa.

  2. Menor erro de prescrição: duas pessoas com 70% da FCmax podem estar em zonas fisiológicas completamente diferentes.

  3. Estímulo mais eficaz: o corpo responde melhor quando treinamos nos limites onde ocorrem adaptações — e os limiares indicam exatamente isso.

  4. Redução de “não respondedores”: pessoas que não apresentam ganhos com métodos tradicionais muitas vezes evoluem quando expostas ao estímulo certo.

  5. Maior controle da carga interna: além da prescrição ser mais eficaz, o monitoramento da fadiga e recuperação também se torna mais preciso.


E por que ainda usamos o método tradicional?

Apesar das evidências, métodos como prescrição por % da FCmax ou VO₂max continuam sendo populares por serem:

  • Simples e amplamente difundidos

  • Não exigirem testes laboratoriais

  • Fáceis de aplicar em grupos

No entanto, essa simplicidade pode custar resultados. O estudo de Meyler et al. mostra que vale a pena investir em uma avaliação mais precisa — como testes de limiar ventilatório, CP ou lactato — mesmo em contextos não atléticos.

Considerações finais

O estudo de Meyler et al. (2024) fornece evidências robustas de que prescrever a intensidade com base em limiares fisiológicos é mais eficaz do que usar métodos tradicionais. Isso vale tanto para ganhos médios de VO₂max quanto para a proporção de pessoas que atingem melhorias clinicamente relevantes.

Para treinadores, atletas e praticantes de endurance, fica o recado: investir em testes mais precisos e adotar estratégias de prescrição baseadas em fisiologia pode ser a chave para desbloquear seu real potencial.

Referência

Meyler SJR, Swinton PA, Bottoms L, et al. Changes in Cardiorespiratory Fitness Following Exercise Training Prescribed Relative to Traditional Intensity Anchors and Physiological Thresholds: A Systematic Review with Meta-analysis of Individual Participant Data. Sports Medicine. 2025;55:301–323.

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