Provas de endurance extremo — como ultramaratonas, Ironman, Hyrox e eventos longos de CrossFit — colocam o corpo humano sob um nível de estresse fisiológico raramente visto em outras modalidades esportivas.
Nos últimos anos, um tema tem ganhado destaque na literatura científica: lesão renal aguda induzida pelo exercício (AKI).
Mas afinal, isso é realmente perigoso?
É apenas uma alteração transitória?
E qual o papel da hidratação nesse processo?
Um estudo recente e robusto publicado no Journal of Applied Physiology ajuda a responder essas perguntas com dados sólidos.
O estudo em destaque
O artigo “Hypohydration augments the acute increase in urinary biomarkers of kidney injury following the 100-mile Western States Endurance Run” investigou os efeitos de uma das ultramaratonas mais duras do mundo (161 km) sobre a função renal.
O foco central foi entender:
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Se o exercício extremo aumenta marcadores de lesão renal
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Se a desidratação potencializa esse efeito
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Se o ritmo da prova influencia o grau de lesão
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E se há alterações no fluxo sanguíneo renal
Quem participou do estudo?
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36 ultramaratonistas
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Idade média: 44 anos
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Tempo médio de prova: ~25h45min
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Coletas realizadas:
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Antes da prova
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Até 1 hora após o término
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Como a lesão renal foi avaliada?
Aqui está um ponto crucial.
A maioria dos estudos antigos avaliava apenas creatinina, um marcador tardio.
Este estudo foi muito além, analisando biomarcadores urinários modernos e sensíveis, incluindo:
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Nephrin → lesão glomerular
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NGAL → estresse tubular
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IGFBP7
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TIMP-2
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IGFBP7·TIMP-2 → único marcador de AKI aprovado pelo FDA
📌 Importante:
O IGFBP7·TIMP-2 é utilizado clinicamente via teste NephroCheck, aprovado pelo Food and Drug Administration, justamente por detectar risco de lesão renal antes da creatinina subir.
O que os pesquisadores encontraram?
1️⃣ O exercício extremo aumentou marcadores de lesão renal
Após a ultramaratona, houve aumento significativo de praticamente todos os biomarcadores de lesão renal, incluindo:
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Nephrin
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IGFBP7
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TIMP-2
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IGFBP7·TIMP-2
Mesmo após correções estatísticas (creatinina, osmolalidade e cistatina C), nephrin e IGFBP7·TIMP-2 permaneceram elevados.
👉 Isso confirma que houve lesão renal subclínica real, e não apenas urina mais concentrada.
2️⃣ A maioria terminou a prova desidratada
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77% dos atletas finalizaram hipohidratados
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Apenas 8 atletas terminaram euhidratados
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Houve aumento significativo da gravidade específica da urina e da osmolalidade
📌 Em outras palavras: desidratação é a regra, não a exceção, em provas longas.
3️⃣ A hidratação teve efeito protetor claro
Este é um dos achados mais importantes do estudo.
Atletas que terminaram a prova euhidratados apresentaram:
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Menor aumento de creatinina urinária
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Menor aumento do IGFBP7·TIMP-2
👉 Ou seja: a hidratação atenuou o estresse e a lesão renal.
Esse dado reforça que a lesão renal induzida pelo exercício não é inevitável — ela é modulável.
4️⃣ Ritmo de prova não foi o principal vilão
Contrariando o senso comum:
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Ritmo mais rápido → mais desidratação
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Ritmo mais rápido ❌ não se associou diretamente a maior lesão renal
Por quê?
Os autores sugerem que:
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Atletas mais lentos ficam mais tempo expostos ao calor, desidratação e estresse metabólico
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O risco renal depende mais de exposição total + hidratação + estresse fisiológico, e não apenas da velocidade
5️⃣ O fluxo sanguíneo renal não mudou no pós-prova
Apesar da lesão renal detectada por biomarcadores:
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O fluxo sanguíneo renal medido após a prova não apresentou redução
Provável explicação:
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A medição foi feita após o término, quando o fluxo renal já havia se normalizado
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Durante o exercício, o fluxo renal certamente cai, mas esse momento não foi capturado
O que isso muda na prática?
🔹 Creatinina sozinha é insuficiente
Em atletas, creatinina pode:
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Subestimar lesão renal
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Ser influenciada por massa muscular
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Normalizar rapidamente, mascarando o problema
🔹 A lesão renal do exercício é real, mas geralmente subclínica
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Não houve hospitalizações
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Não houve falência renal
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Mas houve estresse renal mensurável
🔹 A hidratação é um fator-chave de proteção
Manter euhidratação:
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Reduz a magnitude da lesão
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Diminui o aumento do único biomarcador aprovado pelo FDA
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Pode reduzir riscos acumulativos em atletas que competem frequentemente
Limitações do estudo
Como todo estudo de campo:
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Amostra relativamente pequena
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Ambiente não controlado
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Ausência de coletas tardias (24–48h)
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Não controle rigoroso da ingestão alimentar pós-prova
Ainda assim, os dados são fortes, consistentes e clinicamente relevantes.
Conclusão
Exercícios de endurance extremo aumentam biomarcadores de lesão renal, caracterizando uma lesão subclínica transitória.
Entretanto, o estudo deixa uma mensagem clara:
Finalizar a prova euhidratado reduz significativamente o estresse renal, inclusive no único biomarcador de AKI aprovado pelo FDA (IGFBP7·TIMP-2).
Para atletas, treinadores e boxes, isso significa que:
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A hidratação não é detalhe
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Não é apenas performance
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É estratégia de saúde renal a longo prazo
Referência científica
Linder, B. A., Jeong, S., Stute, N. L., El-Kurd, O. B., Vondrasek, J. D., Pasternak, A., Bagley, J. R., Watso, J. C., Schlader, Z. J., Babcock, M. C., Grosicki, G. J., & Robinson, A. T. (2025).
Hypohydration augments the acute increase in urinary biomarkers of kidney injury following the 100-mile Western States Endurance Run.
Journal of Applied Physiology, 139(6), 1379–1391.

