Nos últimos anos, o chamado “método norueguês” virou um dos assuntos mais discutidos dentro do endurance. Muito disso aconteceu por conta do sucesso de atletas como Jakob Ingebrigtsen e pela popularização do famoso double threshold training — estratégia em que o atleta realiza duas sessões moderadas no mesmo dia.
Mas afinal:
Será que dividir o treino em duas sessões realmente é melhor do que fazer uma sessão longa contínua?
Um estudo publicado em 2024 no Frontiers in Physiology buscou responder exatamente essa pergunta ao comparar as respostas fisiológicas entre:
- uma sessão longa de treino moderado,
vs. - duas sessões curtas com o mesmo volume e intensidade total.
Os resultados ajudam a entender melhor como diferentes organizações do treinamento podem impactar o estresse fisiológico e a recuperação no endurance.
O que é “double threshold”?
Antes de entrar nos resultados, vale entender o conceito.
O double threshold consiste em realizar:
- duas sessões de intensidade moderada no mesmo dia,
- normalmente próximas ao limiar de lactato,
- separadas por algumas horas de recuperação.
A lógica é:
- acumular mais tempo em intensidade relevante,
- sem gerar fadiga excessiva em uma única sessão.
Esse modelo se tornou muito comum em corredores de meio fundo e fundo de alto nível.
Como o estudo foi feito?
Os pesquisadores avaliaram 14 atletas masculinos altamente treinados, com VO₂max médio de aproximadamente 69 mL/kg/min.
Os atletas realizaram dois protocolos diferentes:
Protocolo 1: Sessão Longa (SINGLE)
Uma única sessão composta por:
- 6 × 10 minutos
- em intensidade moderada (“threshold”)
- com 2 minutos de recuperação entre os blocos.
Total:
- 60 minutos de trabalho moderado contínuo.
Protocolo 2: Double Threshold (DOUBLE)
Duas sessões no mesmo dia:
- manhã: 3 × 10 minutos
- tarde: 3 × 10 minutos
Separadas por:
- 6,5 horas de recuperação.
O volume total e a intensidade eram iguais ao protocolo da sessão longa.
O que os pesquisadores analisaram?
Durante os treinos foram avaliados:
- frequência cardíaca,
- lactato,
- VO₂,
- ventilação,
- percepção subjetiva de esforço (RPE),
- fadiga,
- recuperação autonômica,
- dor muscular no dia seguinte.
Ou seja:
o estudo analisou não apenas desempenho, mas também o “custo fisiológico” de cada estratégia.
O principal achado: a sessão longa gerou maior “drift fisiológico”
Durante a segunda metade da sessão longa, os atletas apresentaram aumento progressivo de:
- frequência cardíaca,
- lactato,
- ventilação,
- esforço percebido.
Mesmo correndo na mesma velocidade.
Isso é conhecido como:
Cardiovascular Drift
Fenômeno em que o corpo começa a “sofrer mais” ao longo do exercício prolongado, mesmo sem aumento da intensidade externa.
No estudo:
- a frequência cardíaca subiu de 168 para 173 bpm;
- o lactato aumentou;
- o RPE ficou significativamente maior.
Na prática:
o treino foi ficando fisiologicamente mais pesado com o passar do tempo.
O double threshold gerou menor custo fisiológico
Nas duas sessões curtas aconteceu quase o contrário.
Na segunda sessão do dia:
- a frequência cardíaca caiu,
- o lactato caiu,
- o esforço percebido permaneceu controlado.
Isso sugere que dividir o treino pode:
- reduzir o estresse agudo,
- facilitar recuperação,
- permitir maior tolerância ao volume moderado.
A sessão longa gerou mais fadiga
Outro ponto importante:
Os atletas relataram:
- maior fadiga,
- maior dor muscular,
- maior estresse geral,
no dia seguinte à sessão longa.
Além disso:
- a carga interna percebida (sRPE load) foi muito maior no protocolo SINGLE.
Ou seja:
mesmo com o mesmo volume e intensidade externa, o corpo interpretou a sessão longa como um estímulo significativamente mais pesado.
Então o double threshold é melhor?
Não necessariamente.
E esse talvez seja o ponto mais importante do estudo.
Os autores deixam claro que:
a discussão não é descobrir qual método é “superior”.
Mas entender:
diferentes relações entre estímulo e custo fisiológico.
Ou seja:
- uma sessão longa gera maior estresse e talvez maior sinal adaptativo;
- duas sessões curtas reduzem o custo e podem permitir maior volume semanal.
O conceito de “signal-to-stress ratio”
O estudo trabalha muito com a ideia de:
Signal-to-Stress Ratio
Basicamente:
quanto estímulo adaptativo você gera em relação ao estresse produzido.
Isso é extremamente relevante no treinamento de endurance, porque:
- aumentar volume e intensidade sem controle pode comprometer recuperação;
- a organização das sessões influencia diretamente o custo fisiológico;
- diferentes modelos podem gerar respostas agudas distintas mesmo com volume igual.
Aplicações práticas
Sessões longas podem ser úteis para:
- aumentar tolerância fisiológica ao exercício prolongado;
- gerar maior estresse cardiovascular e metabólico;
- promover adaptações relacionadas à durabilidade (“durability”).
Double threshold pode ser útil para:
- acumular maior volume em intensidade moderada;
- reduzir o custo fisiológico por sessão;
- facilitar recuperação entre estímulos.
Conclusão
O estudo mostra que:
Sessões longas:
- geram maior estresse fisiológico,
- maior fadiga,
- maior drift cardiovascular e metabólico.
Double threshold:
- reduz o custo agudo do treino,
- facilita recuperação,
- pode permitir maior volume acumulado em intensidade moderada.
No final, a principal mensagem do estudo é que diferentes formas de organizar o treinamento moderado produzem respostas fisiológicas distintas, e entender essa relação entre estímulo e estresse pode ajudar na construção de programas de endurance mais eficientes.
Referência
Kjøsen Talsnes R, Torvik P-Ø, Skovereng K, Sandbakk Ø. Comparison of acute physiological responses between one long and two short sessions of moderate-intensity training in endurance athletes. Frontiers in Physiology. 2024;15:1428536. doi:10.3389/fphys.2024.1428536

