Introdução
Desde o seu surgimento, o CrossFit se tornou um fenômeno mundial no mundo do fitness, atraindo milhões de praticantes em mais de 15 mil afiliadas espalhadas pelo globo. Mas, junto com o crescimento, surgiu também uma narrativa persistente: a ideia de que o CrossFit seria altamente lesivo.
Essa percepção, no entanto, não nasceu do nada. Um caso emblemático envolvendo a National Strength and Conditioning Association (NSCA) e uma ação judicial movida pela CrossFit, Inc. ajuda a entender como essa imagem foi construída — e, sobretudo, por que ela continua viva até hoje, mesmo após ser juridicamente desmentida. Para compreender melhor, podemos recorrer à teoria da path dependence do economista e historiador institucional Douglas North.
O caso CrossFit × NSCA
Em 2013, a NSCA publicou um estudo no Journal of Strength and Conditioning Research que sugeria que 16% dos praticantes de CrossFit teriam sofrido lesões por uso excessivo. O detalhe? Esses dados foram fabricados e manipulados, como ficou provado anos depois (Smith et al., 2013).
A CrossFit processou a NSCA em 2014 e, após anos de disputa, a juíza Janis Sammartino, do Tribunal Distrital de San Diego, concluiu que a associação havia cometido “perjúrio extensivo” e que suas evidências eram “inherentemente não confiáveis”. A NSCA foi condenada a pagar quase US$ 4 milhões em honorários advocatícios à CrossFit.
Greg Glassman, fundador da CrossFit, resumiu a gravidade da situação:
“A resposta da NSCA à popularidade do CrossFit foi fabricar e falsificar dados de pesquisa, e depois recorrer ao perjúrio e à destruição de provas quando sua má conduta científica foi revelada.”
A decisão judicial não apenas limpou a imagem da CrossFit juridicamente, como deixou claro que a narrativa de “alto risco de lesão” foi plantada por interesses institucionais.
Por que a fama de lesivo ainda persiste?
Se o estudo foi desmascarado, por que ainda ouvimos tantas vezes a frase: “CrossFit machuca”?
É aqui que entra a teoria da path dependence de Douglas North.
North explica que as instituições e as crenças seguem trajetórias históricas que se tornam difíceis de mudar devido a três fatores principais: custos de mudança, inércia social e mecanismos de reforço.
Vamos aplicar isso ao CrossFit.
Custos de mudança
Mudar uma percepção coletiva exige recursos, tempo e energia. No caso do CrossFit:
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Seria preciso reeducar o público com campanhas, artigos e dados científicos atualizados.
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Exigiria convencer profissionais da saúde que, por anos, usaram a narrativa de “lesivo” para diferenciar seus métodos.
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Demandaria a revisão de materiais acadêmicos e cursos que ainda citam o estudo falso.
Em outras palavras, é mais barato — e mais fácil — simplesmente continuar repetindo o estigma.
Inércia social
A inércia social faz com que as pessoas mantenham crenças mesmo diante de novas evidências. No caso do CrossFit:
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Quem ouviu desde 2013 que “CrossFit machuca” tende a continuar acreditando nisso.
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Profissionais que construíram autoridade criticando a modalidade não têm incentivo para mudar de opinião.
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Academias concorrentes seguem usando a narrativa para atrair clientes.
Assim, a percepção inicial continua rodando no “piloto automático”.
Mecanismos de reforço
Uma vez que a narrativa foi estabelecida, ela passou a se autorreproduzir:
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Cada caso isolado de lesão em um box ganha ampla repercussão na mídia, reforçando a ideia original.
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O efeito de confirmação faz com que as pessoas prestem mais atenção às histórias negativas do que às positivas.
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A autoridade inicial da NSCA deu legitimidade, e até hoje muitos cursos de Educação Física reproduzem o artigo fraudulento.
O resultado é um ciclo de retroalimentação, no qual qualquer novo episódio serve para reforçar a crença inicial.
O que isso significa hoje?
Apesar da vitória judicial e da exposição da fraude, o CrossFit ainda carrega uma reputação injusta. Isso não significa que não haja risco de lesões — afinal, qualquer modalidade mal praticada pode causar problemas. Mas os dados mostram que, com boa supervisão e técnica adequada, o risco não é maior do que em outros esportes (NADERI et al. 2025).
O estigma, portanto, não é fruto da realidade atual, mas sim de uma trajetória histórica construída com base em dados falsos e mantida pela path dependence.
Conclusão
O caso CrossFit × NSCA é um exemplo claro de como ideias podem se cristalizar por caminhos institucionais e sociais, mesmo quando não refletem a realidade. A teoria de Douglas North ajuda a entender que não basta provar juridicamente a fraude — é preciso um esforço contínuo de comunicação, educação e prática segura para reverter anos de narrativa negativa.
Se você é praticante ou está pensando em começar, a lição é simples:
👉 Escolha um box com treinadores qualificados, que valorizem a técnica e a progressão.
👉 Entenda que o risco de lesão existe em qualquer modalidade, mas pode ser controlado com responsabilidade.
👉 Não se deixe levar por narrativas antigas — busque dados reais e viva a experiênci
Referências
NADERI, Aynollah; SHOKRI, Maede; MOKABERIAN, Mansoureh; TRANAEUS, Ulrika. Understanding Sports Injury Risks in CrossFit: A Prospective Cohort Study on Athletic Demographics, Training Profiles, Injury History, and Psychological Factors. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, v. 35, e70100, 2025. DOI: 10.1111/sms.70100
Smith, MM, Sommer, AJ, Starkoff, BE, and Devor, ST. Crossfit-based high-intensity power training improves maximal aerobic fitness and body composition. J Strength Cond Res 27(11): 3159–3172, 2013,

