Ciclo Menstrual, Percepção de Esforço e Desempenho: O Que a Ciência Diz Sobre Treinar em Cada Fase

HERCUES FUNCTIONAL - FITNESS FUNCTIONAL

Treinar mulheres exige mais do que ajustar cargas e volumes. Exige compreender pessoas com fisiologias dinâmicas, que mudam ao longo do mês sob a influência de hormônios como estrogênio e progesterona. Durante anos acreditou-se que essas flutuações impactavam diretamente a performance física — força, potência, endurance. Mas será que isso realmente acontece?

Um estudo recém-publicado no Medicine & Science in Sports & Exercise (Schaffarczyk et al., 2025) trouxe dados novos e extremamente relevantes: o desempenho motor das mulheres permanece estável ao longo do ciclo, mas a percepção de esforço, o humor e o bem-estar variam significativamente dependendo da fase.

A seguir, um resumo claro, aplicável e baseado em evidências para treinadoras, atletas e profissionais que trabalham com performance feminina.


1. Por que estudar o ciclo menstrual importa?

O ciclo menstrual natural envolve oscilações significativas de estrogênio (E2) e progesterona (P4). Já o ciclo do contraceptivo oral suprime esses hormônios e cria um ambiente hormonal artificial.

Esses hormônios influenciam:

  • humor e motivação

  • percepção de esforço

  • fadiga

  • sensação de bem-estar

  • processamento emocional

  • e, supostamente, desempenho físico

Por isso, entender como o corpo responde em cada fase permite ajustar o treinamento sem cair em mitos ou exageros.

Como os hormônios mudam em cada fase do ciclo menstrual

O ciclo menstrual é guiado por dois hormônios principais: estrogênio e progesterona. Eles sobem e descem ao longo do mês e isso muda como a mulher se sente — não a força ou a performance real, mas a percepção do treino, o humor e a energia.

1. Fase Folicular Inicial (menstruação)

  • Estrogênio: muito baixo

  • Progesterona: muito baixa
    É o “vale hormonal”.
    A mulher pode sentir mais cansaço, irritação, menor motivação e perceber o treino como mais difícil. O corpo está capaz, mas a sensação é pior.

2. Ovulação

  • Estrogênio: pico máximo

  • Progesterona: muito baixa
    É o “auge hormonal”.
    O estrogênio elevado melhora humor, confiança, energia, disposição e até a ativação neuromuscular. O treino parece mais leve e a atleta costuma render mais.

3. Fase Lútea

  • Estrogênio: moderado/alto

  • Progesterona: alta
    A progesterona deixa o corpo mais quente, mais cansado e com sensação de inchaço. O treino ainda sai bem, mas a mulher pode se sentir mais lenta ou desconfortável.

Entenda as fases do ciclo menstrual


2. O estudo: como foi feito

O estudo avaliou:

  • 22 mulheres com ciclo natural

  • 6 mulheres usando contraceptivo oral combinado

Cada participante passou por três fases do ciclo (natural ou do contraceptivo), e em cada fase realizou:

🔹 Testes psicológicos (SRSS)

Avaliam estresse, recuperação, humor, equilíbrio emocional, ativação, etc.

🔹 Teste fisiológico em repouso

  • Frequência cardíaca

  • Variabilidade da frequência cardíaca (HRV)

🔹 Teste submáximo de ciclismo (15 min)

Com medições de:

  • RPE (percepção de esforço)

  • Frequência cardíaca

  • Lactato

🔹 Testes motores

  • Força de preensão manual

  • Countermovement rebound jump (salto com RSI)


3. O principal achado: a performance física NÃO muda

Este é o ponto mais importante do estudo:

→ Força, salto, frequência cardíaca, lactato e HRV permaneceram estáveis em todas as fases.

Isso vale tanto para mulheres com ciclo natural quanto para usuárias de anticoncepcional oral.

Em outras palavras:
As mulheres não ficam mais fracas, menos potentes ou menos capazes de performar fisicamente por causa da fase do ciclo.

Esse dado reforça a ideia de que a periodização baseada exclusivamente na fase hormonal não se sustenta. O que muda não é o corpo — é a percepção.


4. O que realmente muda: psicologia e percepção de esforço

## A fase folicular inicial (menstruação) e o início da pausa do anticoncepcional foram as mais desafiadoras.

Nessas fases, as mulheres apresentaram:

📌 Mais fadiga percebida

Mesmo realizando exercícios submáximos, as participantes reportaram maior esforço na fase menstrual (EFP) e no início da pausa do anticoncepcional (EIPP).

📌 Pior equilíbrio emocional

Maior irritabilidade, menor bem-estar e menor estabilidade emocional.

📌 Menor sensação de capacidade física

“Me sinto menos capaz”, apesar de os testes mostrarem que fisicamente elas estavam iguais.

📌 Maior falta de ativação / motivação

Relatos de “peso”, “lentidão”, “baixa energia”.

📍 Esse conjunto de fatores altera a experiência subjetiva do treino, não a capacidade real de desempenhar.


5. Por que isso acontece?

O estudo sugere que:

  • Baixo estrogênio diminui a modulação serotonérgica → mais fadiga, pior humor.

  • Sintomas menstruais (cólicas, irritabilidade, desconforto) elevam a sensação de esforço.

  • O início da pausa do anticoncepcional fisiologicamente se comporta como a menstruação natural.

É um efeito prioritariamente psicológico e perceptual, não fisiológico.


6. O que isso significa na prática para o treinamento?

Com base nos achados do estudo e na literatura atual, as recomendações práticas são:


✔ 1. A intensidade real pode ser mantida — a percepção deve ser ajustada

Como RPE aumenta na menstruação, treinos prescritos por velocidade, potência ou carga absoluta funcionam melhor do que prescrição por zonas subjetivas.


✔ 2. A autoregulação (RPE) é fundamental

Se sua atleta costuma treinar usando RPE, espere que ela perceba pesos moderados como mais pesados no início do ciclo.

  • RPE 6 pode parecer RPE 7

  • RPE 8 pode parecer RPE 9


✔ 3. Fase menstrual NÃO é fase para “proteger”, mas para flexibilizar

Não há motivo fisiológico para evitar:

  • treinos de força

  • treinos de potência

  • tiros intervalados

  • exercícios técnicos

Mas é importante respeitar sintomas.


✔ 4. A fase ovulatória tende a ser o “pico perceptual positivo”

O estudo confirma que nessa fase as mulheres:

  • se sentem mais bem-humoradas

  • percebem menos esforço

  • têm mais ativação e motivação

Possivelmente um bom momento para:

  • PRs

  • sessões de maior intensidade

  • treinos técnicos complexos


✔ 5. Atletas que usam contraceptivo também oscilam

O mito de que “anticoncepcional estabiliza tudo” não se sustenta.

A fase de pausa imita a menstruação em termos de:

  • humor

  • motivação

  • percepção de esforço


✔ 6. Monitoramento simples supera qualquer modelo rígido

Recomendações atuais:

  • Aplicar questionários simples (como o SRSS)

  • Registrar RPE diariamente

  • Observar padrões individuais

  • Flexibilizar o treino conforme sintomas

O que importa não é a fase hormonal e sim como a atleta se sente.


7. Conclusão: treinar mulheres é treinar pessoas — não hormônios

O estudo de Schaffarczyk et al. (2025) reforça uma mensagem essencial:

O ciclo menstrual afeta muito mais a percepção do que o desempenho físico.

Isso significa que:

  • Mulheres não se tornam mais fracas ou menos potentes em nenhuma fase.

  • A forma como elas sentem o treino muda ao longo do mês.

  • A periodização deve respeitar sintomas, e não datas fixas.

  • Estratégias individuais sempre superam generalizações.

Treinar mulheres com ciência é entender que cada atleta tem um ciclo único — e a melhor estratégia é ouvir, registrar, ajustar e comunicar.


Referência

Schaffarczyk, M. et al. (2025). Psychological But Not Motor Performance and Physiological Metrics Are Influenced in Menstrual Cycle Monitoring During Rest and Submaximal Cycling. Medicine & Science in Sports & Exercise

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