As Características do Treino de Corredores de Elite: Lições da Ciência e da Prática

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Descubra como treinam os melhores corredores do mundo. Volume, intensidade, periodização, altitude e tapering: o que a ciência e a prática revelam sobre a preparação de maratonistas e fundistas de elite.

 

Introdução

Por trás de cada recorde mundial, medalha olímpica e performance histórica nas corridas de longa distância existe uma rotina de treino meticulosamente planejada. Mas afinal, o que diferencia o treinamento dos melhores corredores do mundo?

Um estudo publicado em 2022 por Haugen e colaboradores integrou literatura científica e diários de treino de campeões olímpicos e mundiais para revelar os princípios que norteiam a preparação de fundistas (5.000 m e 10.000 m) e maratonistas.

Neste artigo, vamos explorar os principais pontos do estudo e mostrar como a ciência e a prática se encontram na busca pela excelência no atletismo de resistência.


Os Pilares da Performance de Endurance

A preparação de elite busca desenvolver cinco fatores essenciais:

  • VO₂máx: a capacidade máxima do corpo em consumir oxigênio.

  • Utilização fracionada do VO₂máx: quanto do máximo o atleta consegue sustentar em competição.

  • Economia de corrida: gastar menos energia para correr no mesmo ritmo.

  • Potência neuromuscular: importante no sprint final das provas táticas.

  • Resistência à fadiga: crucial para manter o ritmo competitivo nos quilômetros finais da maratona

Esses elementos não se desenvolvem de forma linear. Por exemplo, a maratonista Paula Radcliffe manteve VO₂máx estável por mais de uma década, mas melhorou em 15% sua economia de corrida – fator decisivo para o recorde mundial.


Quanto e Como Correm os Atletas de Elite?

Os números impressionam:

  • Maratonistas: 160–220 km por semana.

  • Fundistas de pista: 130–190 km por semana.

  • Ambos treinam de 11 a 14 vezes por semana, quase sempre em dois turnos.

  • Mais de 80% do volume é realizado em baixa intensidade (o famoso trote leve)

Ou seja, mesmo atletas que correm 2h05 em uma maratona passam a maior parte do tempo treinando em ritmos muito abaixo da intensidade de prova.


Periodização: A Arte de Estruturar a Temporada

Fundistas (5.000 m e 10.000 m)

  • Usam periodização simples (um pico principal ao ar livre) ou dupla (incluindo temporada indoor/cross).

  • Realizam cerca de 9 competições por ano, sendo 6 delas antes dos Jogos Olímpicos ou Mundiais.

  • O foco vai de volume aeróbio na fase geral para ritmos de prova na fase específica.

Maratonistas

  • Competem menos: em média 6 provas por ano, com duas maratonas principais.

  • Organizam a preparação em ciclos de primavera e outono.

  • Alternam fase geral (base aeróbia) e fase específica (simulação em ritmo de prova).

  • Os longos, muitas vezes em ritmo progressivo, são a espinha dorsal do treino.


Métodos de Treino Mais Utilizados

Corridas contínuas

  • Rodagem leve: 40–70 minutos em ritmo confortável.

  • Longões: até 165 minutos, fundamentais para maratonistas.

  • Tempo run/limiar: de 20 a 50 minutos em ritmo de meia-maratona.

  • Fartlek: alternância de ritmos em terrenos variados.

  • Progressivos: começam fáceis e terminam em ritmo próximo ao competitivo.

Intervalados

  • VO₂máx: repetições de 2–4 min em ritmo de 3.000–10.000 m.

  • Limiar fracionado: como 10 x 1 km em ritmo de meia-maratona.

  • Lactato: tiros curtos (150–600 m) para tolerância ao esforço.

  • Hill repeats: subidas de 200–1.000 m para força específica.

Complementares

  • Sprints de 60–120 m: mantêm velocidade máxima.

  • Treino de força e pliometria: squats, saltos, core e exercícios explosivos, 1–2 vezes por semana.


A Distribuição da Intensidade

Existem três modelos de referência:

  1. Pirâmide: muito treino leve, pouco moderado, mínimo de alta intensidade.

  2. Polarizado: leve + mais sessões muito intensas.

  3. Threshold: maior volume em zona de limiar.

Na prática, todos os modelos se misturam conforme a fase da temporada. Mas o denominador comum é claro:
👉 Mais de 80% do treino é em baixa intensidade


O Papel da Altitude e da Tecnologia

  • Atletas africanos treinam quase sempre em altitude (2.000–2.500 m).

  • Europeus e americanos utilizam campings de altitude no período preparatório.

  • O avanço dos “super tênis” (desde 2016) melhorou a economia de corrida, reduziu dores musculares e permitiu maior tolerância ao volume, coincidindo com a quebra de vários recordes mundiais.


Tapering: O Polimento Final

A fase de tapering dura 7 a 10 dias antes da prova principal, reduzindo volume sem perder intensidade.
Pesquisas indicam que esse processo pode gerar um ganho de 1 a 3% no desempenho – o suficiente para decidir pódios olímpicos.


O Que Podemos Aprender com os Corredores de Elite?

  1. Volume alto em baixa intensidade é essencial.

  2. A periodização organiza o ano, não a semana.

  3. Treinos longos são cruciais para maratonistas; intervalados para fundistas.

  4. A consistência ao longo de anos conta mais que picos de carga.

  5. Tecnologia e ciência andam juntas, mas a prática real guia as inovações.


Conclusão

O treinamento de corredores de elite não é baseado em fórmulas mágicas, mas em princípios simples, aplicados com disciplina extrema ao longo do tempo: correr muito em baixa intensidade, incluir doses estratégicas de intensidade, planejar bem a temporada e respeitar o corpo.

Para o corredor amador, a principal lição é clara: se você quer correr rápido, precisa passar a maior parte do tempo correndo devagar.


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Referência

Haugen T, Sandbakk Ø, Seiler S, Tønnessen E. The training characteristics of world-class distance runners: an integration of scientific literature and results-proven practice. Sports Medicine – Open. 2022;8(46). doi:10.1186/s40798-022-00438-7

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